Ética? Segundo que critério?


Aparecem orações injetadas nas fórmulas de adesão das associações de classe e rotuladas de “código de ética.” São sempre da autoria de pessoas anônimas que jamais estudaram a matéria, não sabem definir o que é ética–muito menos dizer qual seria a serventia prática de uma coisa dessas na busca pela felicidade da pessoa humana.

São amostras:

Artigo 2º O intérprete obriga-se à estrita observância do segredo profissional, não podendo divulgar a quem quer que seja qualquer informação obtida no decorrer de sua atividade profissional, salvo no caso de reuniões abertas ao público em geral.
Esse primeiro procura estabelecer os moldes de uma societa sceleris ou quadrilha, cujas atividades, por serem desonrosas, só escapam da retribuição pelo sigilo. É o caso da associação-fachada, armadilha para atrair e tapear ou explorar os jovens, inexperientes, mas úteis. Semelhante ao voto secreto, é o tipo de coisa que serve para tapar, ocultar e mascarar a desonestidade e má fé.

Artigo 3º O intérprete não utilizará em proveito pessoal informações confidenciais porventura obtidas no exercício da profissão.
Outro juramento desnecessário e nada ético. Afinal, tudo o que é realmente sigiloso na profissão aparece em termos de confidencialidade – instrumentos contratuais que nada têm a ver com a constituição de cabalas ou evasão de meliantes. Um exemplo basta: Para o intérprete policial que descobre que um bando de terroristas pretende assassinar o intérprete dos policiais, significa que ele não pode pedir demissão para escapar, tampouco, se afastado, pode alertar deste perigo o colega que o substituiria.

§4º empenhar-se em participar da tomada de decisões do seu órgão de classe e em vê-las acatadas, em particular no que se refere à remuneração justa, às
condições de trabalho e ao respeito aos direitos do tradutor.
Este é o apelo ao coletivismo tribal para arrebanhar e controlar os fiéis, reforçado pelo obscurantismo da palavra mágica “direitos,” jamais definida, e pela pressão social.
1.1. No exercício de suas atividades, sejam profissionais ou não, deve estar sempre consciente da nobreza e dignidade desse ofício que é de utilidade pública, contribuindo de todas as formas para o seu constante aperfeiçoamento e prestígio da classe.
É apelo ao misticismo obscurantista reforçado pelo auto-engano coletivo, como na fábula de Hans Christian Andersen em que só a criança inocente percebe que o rei está nu.  Esses delírios coletivistas incorporam bobagens sem avaliar as fontes. A tática é impressionar ou intimidar pelo vulto do palavrório, sem se preocupar com fundamentos, princípios ou significado.
Qual seria, afinal, o significado e utilidade da “ética”?
A ética é um código de valores que serve para nortear e informar as escolhas e o modo de agir da pessoa. A palavra-chave da definição é valores, pois sem um padrão ou critério de valores para lastrear o discernimento, o conceito carece de utilidade ou serventia. E é justamente nesta questão da identificação do critério que as correntes se separam.
Uns reparam que o conceito de valor só possui significado para entes vivas. O ser-ou-não-ser pelo qual só o ser vivente, o indivíduo, confronta a alternativa da vida ou morte seria, nesta visão, a base, o critério dos valores que informa a sua tomada decisória. Valor é a diferença entre a vida exuberante e feliz, e a morte. Tudo o que procuramos obter e preservar pelas nossas atividades e decisões são valores.  A ética se traduz pelas virtudes, como as da honestidade, produtividade, orgulho e ambição, sintetizadas e preservadas pela integridade.
Outros procuram afastar esse fato da mente, e imaginam que as opiniões alheias, ou promessas conjugadas em previsões nada verificáveis – de cartomantes, videntes, padres, pastores, burocratas ou arcebispos – servem  para alicerçar as escolhas racionais da pessoa humana. A responsabilidade pelos atos é assim transferida, cedida a outrem, pelo equívoco do altruísmo. Essa doutrina, que transfere para fora de si os valores, é o que incorpora as noções deontológicas que transmitem os efeitos do erro. Na maioria das vezes os protagonistas e antagonistas desta versão do certo e errado são seres invisíveis – fadas e fantasmas, deuses e diabos – que não podem ser detectados pelos métodos do conhecimento humano. É o critério dos que defendem o afastamento do valor da vida humana da esfera de cogitação e procuram substituí-la pelos supostos estados que dependem da morte como antecedente. Seus defensores incluem Immanuel Kant e todas as defensorias da deontologia – antônimo da ética, só que apresentado como sinônimo. Na lógica formal, o equívoco é um erro fundamental de confundir os significados, que vicia as conclusões posteriores e dependentes de toda e qualquer proposição.
Esta distinção é justamente o que falta nos mandamentos que os espertos lavram e impõem às relações comerciais, sem discussão ou justificativa. A profissão praticada pelo tradutor exige seu empenho em oferecer ao beneficiário dos seus serviços o valor prático que é o resultado da sua atividade: a transmissão do significado e teor do original em outro idioma de acordo com as especificações do contrato. Contrato é a outra palavra  omitida nestes “códigos” que elevam o altruísmo e omitem o valor da vida humana. Contrato é o acordo pelo qual as partes entre si oferecem e aceitam, de livre e espontânea vontade, uma troca mutuamente vantajosa. As partes deste contrato são os participantes despercebidos da profissão na ótica dos vendedores de mandamentos. Estes dispensam as qualidades de incoacta e espontânea, preservando apenas a da obrigatoriedade deontológica, acrescentando, sempre que possível,  a violência da lei.
Para exemplificar o conceito, basta entender que toda vez que A e B fazem planos pelos quais C será obrigado a fazer algo por D, este “C” é a pessoa despercebida. No mundo dos contratos e negócios, é também a pessoa desapercebida.
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