A vaporização do mícron


mu

10 EE -6 metro ou 0,001 centímetro = 1 mícron

Um metro dividido por um milhão dava, na antiguidade primordial em que mal se sabia explodir uma bomba de hidrogênio, um mícron, comprimento abreviado pela letra mu. A utilidade singela deste vocábulo ofendeu as sensibilidades de burocratas obscurantistas que não resistiram ao impulso de bedelhar no alheio. Só na ficção já aconteceu algo parecido.

Na tradução de Wilson Velloso do fúnebre romance “1984” de George Orwell, as pessoas cuja existência o Partido julgava incômodo desapareciam na calada da noite, abolidas, aniquiladas, vaporizadas em impessoas. Foi essa a sina do humilde mícron. Com um passe da varinha de condão, o vocábulo foi degredado em sentença transitada em juízo e aplaudida apenas pelo oficialato ignaro; o mícron foi destituído de todo significado e declarado uma impalavra… vaporizado.

micrometro

Instrumento para medir comprimentos ou distâncias

Só que os cientistas e engenheiros que sabem medir as coisas usando micrometros, micrómetros ou micrômetros até hoje nem repararam na sentença dessa bedelhocracia. E esta não cogita por um segundo a hipótese de ter sido um erro se intrometer naquilo que fugia à sua competência. Aliás, nas quatro décadas em que fui espectador involuntário desse teatro de fantoches, jamais vi uma justificativa ou explicação sequer do decreto de vaporização. Um painel colegiado votou nesse erro–erro que introduz ambiguidade e incoerência sem nada agregar–e ainda insiste em querer que as pessoas educadas se curvem ante isso como Revelação Divina.

Na vida real quem comete com impunidade esses ultrajes são juízes e políticos corruptos. Estes podem despachar meganhas armados para cobrar cumprimento dos decretos mais imbecis, sem se tocar que a revelação foi alucinada, o decreto um erro. O mícron, consagrado por décadas de uso no linguajar de verdadeiros estudiosos formados nas ciências exatas, é um inocente útil injustamente vaporizado pela burrice que não sabe se valer da experiência com os fatos da realidade.

Tirando esse pedantismo injusto, o resto da publicação do Inmetro sobre o Sistema Internacional é um guia valioso que vale a pena folhear.

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